Pássaros sem ninho protestam por árvores… Protesto com eles! Publicado em 25/09/201924/09/2019 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano De manhã, ao invés do canto dos pássaros e do alarido das ararinhas, a rua despertou envolvida no ruidoso e destoante ronco de motosserras. A poda acontece fora de época, invadindo a primavera e gerando desconforto e sentimento de nostalgia. Isso acontece numa ruazinha da Tijuca. O bairro é muito antigo e, atualmente, já não tem tantas casas. Seus casarões e chácaras foram paulatinamente substituídos por prédios. Mas ainda é bastante arborizado e com recantos retirados, com edifícios mais baixos, algumas casas remanescentes, pracinhas e tudo o mais. E, onde há árvores, há borboletas, cigarras, diferentes outros insetos, morcegos e pássaros. A rua em questão tem muitas árvores, prioritariamente umas de pequenas folhas, abundantes florezinhas e vagens, que já estavam no local há quase 50 anos quando me mudei para cá. Florescem enchendo de amarelo as copas e o chão, contrastando com o verde das folhas e o azul intenso do céu nos dias ensolarados. É bem verdade, e isso eu preciso admitir, que as suas raízes são invasivas. Estropiam calçadas, criam obstáculos, invadem a rede de esgoto e a tubulação de água, gerando transtornos… Também tenho que reconhecer que, seja pelo vento, pelas podas talvez inadequadas, pela própria estrutura dos calçamentos, pela ação daninha dos cupins (e há muitos por aqui), estão muito tombadas, frágeis e representam um risco a passantes e carros. A tal poda fora de época é, com probabilidade 1, fruto e resposta ao incidente de queda de uma dessas árvores recentemente. Ninguém saiu ferido, exceto os bolsos dos donos dos carros destruídos. Mas isso suscita, sem dúvida, a urgência de providências com relação às outras ameaças. Se estivéssemos na floresta, as árvores cairiam e, de três uma… Ou se encostariam nas suas amigas e vizinhas, seguindo inabaladas sua vida por mais algum tempo, assim apoiadas. Ou tombariam de vez e ainda floresceriam, alimentadas pelas raízes que continuassem tocando o solo. Ou, por fim, morreriam e dariam vida nova à terra, transmutando-se em adubo. Mas estamos na cidade! O ser humano invadiu os terrenos e transformou-os. No espaço urbano, a natureza deve moldar-se às suas necessidades e desejos. Atender àquilo que considera conveniente e adequado às suas demandas cotidianas. A questão é que o ser humano também é parte da natureza. Só que se esquece disso com frequência e perde o sentido e a vontade de harmonia. Tal atitude, no entanto, cobra seu preço em cada gota de estresse, em cada ansiedade e depressão nossa de cada dia… Viver em meio à vegetação exuberante do Rio de Janeiro, cercado de montanhas e mar, em contato com abelhas, borboletas, cigarras, formigas, cupins, pássaros e aves dos mais variados, macaquinhos e morcegos, pode ser revigorante. Muitas vezes atrapalha, é verdade (não se pode negar!). Mas, sem que o percebamos com a razão, também nos devolve um quê de natural, de telúrico; nos envolve com essa dimensão ecológica. Hoje, me junto ao lamento dos pássaros, cujos ninhos, talvez já com ovinhos da ninhada de primavera deste ano, foram destruídos com os galhos cortados. Não protesto contra uma medida de segurança – árvores condenadas precisam mesmo ser extirpadas… Protesto, no entanto, COM os sabiás-laranjeira, com os bem-te-vis, com os pardais, com as maritacas POR novas árvores. As tais árvores prometidas pela administração pública, com raízes verticais, mais seguras, e que serão escolhidas em conjunto e por sugestão dos moradores. Pois, que venham!… E que sejam árvores que tenham copa abundante, para nos proteger do calor intenso do verão carioca e abrigar amigavelmente os seus moradores emplumados. Que tenham flores para alegrar nossos dias. Que cresçam rapidamente para recuperar o frescor do verde que se debruçava sobre as calçadas e a rua. E que nos ajudem a suprimir essa nostalgia do ser urbano que perdeu parte de sua identidade natural. Visualizações: 529 Compartilhe! Opinião
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