Invisível

Por: Cristina Vergnano

Segundo o dicionário Aurélio, invisível é aquilo “que não se vê; não pode ser visto”. Também, aquilo “de que não se tem conhecimento”. Há outras acepções, mais giram, de maneira geral, em torno da mesma ideia, real ou figurada, relacionada a coisas ou pessoas que não estão ao alcance do sentido de nossa visão.

Saint-Exupéry, pela boca da raposa que conversava com o principezinho, nos ensinou que “o essencial invisível aos olhos”. Isso significa que é pelos sentimentos sinceros que conseguimos perceber e assimilar o que de fato é importante para nossas vidas.

No entanto, a invisibilidade se faz presente, tanto na literatura quanto no cinema, em contextos bem menos filosóficos e inspiradores. Em “O homem invisível”, de H. G. Wells, levado às telas do cinema em 1933 com várias versões posteriores (inclusive série de televisão), um cientista, que por acidente acaba tornando-se invisível, tem na violência e insanidade o efeito colateral que precisa combater.

No âmbito das histórias em quadrinhos (e cinema), o personagem Rorschach, de “Watchmen” só é reconhecido quando usa a máscara, seu rosto sem face, apenas com imagens mutáveis como nos testes de Rorscharch. Sem essa máscara, além de não se reconhecer/ aceitar mais, ele também fica “invisível”, ou seja, um na multidão, passando despercebido dos que estão em seu entorno e daqueles que o procuram.

Os seres invisíveis também assustam, assombram como fantasmas. Ameaçam, pois não podem ser reconhecidos. Contra eles, não há defesa.

A invisibilidade nossa de cada dia, porém, aquela do anonimato, tem suas vantagens, sem dúvida. Ao menos nos permite guardar nossa privacidade, proteger-nos dos paparazzi. No entanto, também nos mostra como estamos sós em meio à multidão.

Nossa sociedade atual está profundamente marcada pelo individualismo. Apesar de alardearmos milhares de amizades nas redes sociais, de divulgarmos o mais mínimo ato cotidiano que praticamos, vivenciamos ou observamos (a foto de nosso prato de comida, nossa agenda diária, um acidente na rua etc), muitas vezes estamos sós. Trata-se de uma solidão acompanhada, cercada de um sem-número de pessoas, mas, em sua maioria, virtuais, sem rosto, ou com uma face que nem sabemos se é verdadeira.

Passamos pelas ruas, calçadas e praças com os olhos colados na telinha sensível de nosso celular, quase uma extensão de nossos olhos e mãos. Não vemos aquele maravilhosos arco-íris que se formou após a chuva, nem a bicicleta que nos vem ao encontro na contramão, ou a criança correndo atrás da bola, o morador de rua sob a marquise, o assaltante que se aproxima rápido e furtivo para arrancar o precioso aparelho de nossas mãos. Não percebemos, tampouco, a plantinha que brota na fresta do concreto, a flor colorida e cheirosa no canteiro da praça, os animais brincando entre si, nem o descaso com o meio urbano ou ambiente. A maioria dentre nós, pelo menos, age assim… Em resumo, passa-se pela vida cotidiana como se ela fosse invisível, desimportante, imaterial, desinteressante…

Ouvi, ao longo dos meus anos, tanto no âmbito da realidade, quanto no da ficção, comentários sobre a invasão de privacidade dos vizinhos fofoqueiros. De como, em cidades pequenas, ninguém estava livre para viver sem um “espião” fuxicando cada minuto de sua existência. Não posso negar que isso é chato. Que ter privacidade é importante e um direito. O anonimato costuma fornecer um pouco dessa privacidade e é bom que ambos existam. Cabe, contudo, refletir se, de fato, o sentimento de pertencer, a oportunidade de conhecer de verdade o outro e deixar-se conhecer, a familiaridade (perdida nas malhas das grandes metrópoles e nos meandros das redes virtuais) são mesmo tão daninhos.

Por estes dias, andando pelas ruas do meu bairro (que é bastante grande e já tinha, segundo o censo de 2010, 163.805 habitantes!!!!), comecei a perceber um pouco dessa contradição. De modo geral, as pessoas se cruzam sem se olhar nos olhos. Falar entre si… nem pensar! Todos estão agitados, correndo de algum lugar para outro qualquer, cuidando de seus afazeres, ocupados com seus pensamentos ou com seus fantasmas, vidrados nos celulares. Os vários moradores de rua costumam, claro, ser ignorados em sua invisibilidade. Quando são vistos, costuma ser para deixar escapar o desconforto que provocam, pela silenciosa denúncia da desigualdade social.

Mas, como disse, existe aqui uma contradição. Em meio a essa ignorância tácita dos demais, estão os cumprimentos cordiais, os acenos de mãos ou cabeças, os bons dias, boas tardes, boas noites trocados entre pessoas que sempre se veem nas ruazinhas que desembocam nas grandes vias de comunicação, se reconhecem, mas não sabem os nomes umas das outras. É um delicioso resquício dos tempos de antes, quando havia mais interação real e menos contatos virtuais, quando se dava mais tempo ao tempo.

Ser invisível (tornar-se invisível) é uma moeda com dois lados. Haverá momentos em que esse anonimato será desejado e desejável. Cumprirá seu papel de garantir às pessoas serem elas mesmas e terem espaço para pensar e se ouvirem. Importante, contudo, é não esquecer que a visibilidade também precisa continuar existindo. Que não somos sós no universo. Que nos completamos na interação com o outro e essa interação precisa ser real, para além das imagens virtuais criadas nos perfis. Ser invisíveis nestas circunstâncias é negar-se a si mesmos e aos demais, pois o ser humano é um ser social, não pode existir isolado como tal. Caso isso ocorra, começará a tornar-se outra coisa…

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2 comentários em “Invisível

  • 25/02/2020 em 22:08
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    Uma coisa que acho intrigante… na maioria das vezes em que cumprimento alguém com “bom dia, tudo bem?”… a pessoa responde da mesma forma… Acho que é automático, né? Pressa, medo…sei lá… Adorei o texto!!!!

    • 25/02/2020 em 22:39
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      Jak, é a pura verdade… Nossas respostas são automáticas, quase fórmulas. Não significam o que estamos dizendo, apenas que estamos respondendo. Mas, imagine se, com os estados de ânimo que às vezes nos assolam na atualidade, respondêssemos desfiando o rosário de nossas penas!!!! Creio que ficaria sinistro, né?!
      Que bom que gostou do texto!!!! Bom, também, ver você mais uma vez por aqui. Até a próxima!!!!

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