Carnaval: subversão, antecipação, catarse

Por: Cristina Vergnano

Todos os anos, num período flutuante entre os meses de fevereiro e março, ocorrem as festividades do carnaval. Sua intensidade e expressão variam em diferentes países e regiões do mundo. Os sentimentos a elas relacionados oscilam, também, de efusiva empolgação à rejeição severa. Muitas vezes, as críticas à festa e às atitudes dos foliões apoiam-se em posicionamentos religiosos. No entanto, e pode parecer uma ironia e contradição, o carnaval tem uma relação com a prática religiosa, sendo uma tradição muito antiga e europeia.

Isso mesmo! O termo “carnaval” vem do latim “carnis levale” que significa, literalmente, “retirar a carne”. Guarda uma associação a ritos da igreja católica, antecedendo o período da Quaresma.

A Quaresma dura 40 dias, tem um calendário móvel e antecede a Semana Santa. Trata-se de um período de preparação para a festa mais importante do catolicismo (e, permito-me supor, do cristianismo em geral): a Páscoa. Nesta, rememoramos Jesus, entregue pelos homens ao martírio e sacrifício na cruz, que ressuscita e traz a salvação, a redenção para a espécie humana, libertando-a do pecado e da morte. O tempo quaresmal, também, dentre as muitas referências bíblicas ligadas ao numeral 40, lembra-nos os dias passados por Jesus no deserto, em oração, antes do início de sua vida pública. Nesse sentido, Quaresma é um tempo de reflexão sobre a própria vida à luz dos ensinamentos cristãos, arrependimento pelas faltas, mudança de atitudes, prática de obras de caridade e fortalecimento da fé.

Voltando à questão do carnaval, cuja origem remonta à Antiguidade segundo diferentes teorias aceitas por historiadores, ele está relacionado a festividades pagãs. Pode ter surgido a partir de festejos naturais da Babilônia, da Mesopotâmia, da Grécia ou de Roma, ou de uma síntese dessas diferentes comemorações. Mas, seja em que lugar tenha tido sua gênese, um aspecto comum compartilhado entre tais festas e presente no carnaval atual é a subversão da ordem social. Ou seja, pobres e escravos revestiam-se do status de senhores e estes eram humilhados; homens disfarçam-se de mulheres, pessoas nobres se mascaram e se misturam à população comum. (Para aumentar as informações, você pode consultar os sites: https://www.todamateria.com.br/historia-e-origem-do-carnaval/ ou https://brasilescola.uol.com.br/carnaval/historia-do-carnaval.htm, por exemplo.) Nessas ocasiões, as pessoas vivenciavam (e ainda o fazem) liberdade, excessos, entrega aos prazeres carnais, trocando papéis, gozando aspectos que normalmente lhes seriam proibidos, igualando-se, independente de suas origens e posições.

Com o crescimento do cristianismo e durante a Idade Média, novos sentidos foram sendo associados a essas festas vindas do paganismo, reunidas na comemoração do carnaval. Este acabou tornando-se um período em que os fiéis podiam libertar-se das tensões, divertir-se e despedir-se da carne e dos prazeres que seriam restringidos durante o tempo quaresmal. É preciso levar em conta que esses quarenta dias são marcados por jejuns, abstinência de carne e comportamento circunspecto e penitencial, em preparação para a grande festa da Páscoa (para entender melhor a Quaresma, você pode ler: http://arqrio.org/formacao/detalhes/1660/quaresma ou https://formacao.cancaonova.com/liturgia/tempo-liturgico/quaresma/qual-e-origem-e-o-sentido-da-quaresma/). Com o passar do tempo, igualmente os festejos carnavalescos foram sendo controlados em atividades, comportamentos e duração, tendo sofrido repúdio nos momentos mais rigorosos da história.

Muita gente pode não saber, mas o carnaval como uma grande festa não é privilégio do Brasil. Outros países e localidades o festejam com brilho e intensidade, embora com características próprias: Veneza, na Itália; Nice, na França; Nova Orleans, nos Estados Unidos; Ilhas Canárias, na Espanha; Oruro, na Bolívia; Barranquilla, na Colômbia.

Em nosso país, suas primeiras manifestações foram os entrudos, de origem portuguesa, nos quais os foliões jogavam farinha, água, ovos etc, uns nos outros, pelo meio da rua. Essa prática foi proibida no século XX e substituída por costumes franceses de jogar confetes, serpentinas e flores nos participantes dos folguedos. Seguiram-se os corsos – desfiles de famílias abastadas em carros abertos, lançando confetes e serpentinas nos passantes –, os ranchos, as sociedades carnavalescas e os cordões, até as atuais escolas de samba. Também gêneros musicais novos surgiram: as marchinhas cariocas, com ritmo marcial, mas rápidas, com duplo sentido e fundo satírico; os sambas e sambas-enredo; a batucada, o axé, o frevo.

Na verdade, o carnaval no Brasil tem cores, sabores e ritmos próprios, dependendo da região e das influências que sofreu. Se no Rio de Janeiro abundam os blocos (ainda bem que o carnaval de rua renasceu por aqui!) e as escolas de samba, na Bahia temos os trios elétricos, as timbaladas e os grandes grupos de percussão e, em Pernambuco (Recife e Olinda) apreciamos os grupos de frevo e os bonecos gigantes.

A subversão da ordem estabelecida continua em pauta, nas fantasias e na democracia do encontro de gente de diferentes classes sociais nos mesmos espaços. A antecipação do momento circunspecto e de recolhimento espiritual do tempo quaresmal também se mantém viva e ativa entre fiéis católicos. Mas… e a catarse?!?

Bem, o termo catarse refere-se a purificação (só para começar a entender o tema, pode-se ler: https://www.todamateria.com.br/o-que-e-catarse/). Surgiu na filosofia, com Aristóteles, relacionado à purificação das almas. Mas está presente em diferentes áreas do saber, sempre ligado à limpeza e purificação. Na psicologia e psicanálise, associa-se à cura dos traumas, numa libertação psíquica.

Nas marchinhas carnavalescas, ao longo dos tempos, vemos retratados esses desejos de libertação. Por exemplo: “são três dias de folia e brincadeira/ você pra lá eu pra cá/ até quarta-feira”(Até quarta-feira); “Um dia é pra gente sofrer, /O outro é pra gente penar,/Eu chorarei amanhã, /Hoje o que eu quero é sambar.(Eu chorarei amanhã); “Pra quem vive o ano inteiro,/ preso da hipocrisia,/pra quem vive mascarado,/ no mundo falso da fantasia,/ um remédio eu quero ensinar,/pra curar o seu mal./ Um remédio que é bom de tomar,/carnaval, carnaval, carnaval.” (Carnaval, carnaval); “Vou beijar-te agora,/ não me leve a mal/ hoje é carnaval.” (Máscara negra); “Mas é carnaval./ Não me diga mais quem é você./ Amanhã tudo volta ao normal./ Deixa a festa acabar./ Deixa o barco correr./ Deixa o dia raiar./Que hoje eu sou da maneira que você me quer”(Noite dos massacrados). Ou seja, o espírito da festa, na percepção popular, é o de romper laços, o da superação dos males do cotidiano pela festa, pela farra, pelo esquecimento dos problemas e dores, momentaneamente. Sim!… porque eles continuarão ali, estarão à espera de cada um a partir da volta à realidade na quarta-feira de cinzas. Pela ironia, pela gozação e pela crítica, os compositores criaram peças que ilustraram e continuam ilustrando pensamentos e sentimentos do povo: seu anseio por libertação e fim das penas.

Esse sentido de purificação das angústias do dia a dia, de libertação do sofrimento pela farra sem barreiras pode, com frequência, revestir-se de riscos, nas ações tresloucadas e inconsequentes, nas quais tudo é perdoado pelo simples fato de ser carnaval. É como a “Hora rubra”, episódio da Jornada nas Estrelas, série clássica (The return of the Archons, no seu título original). Nele, o computador que controla todos os seres de um planeta, mantendo-os numa total submissão e paz sem sentimentos ou paixões, entende que deve haver um festival periódico quando todos excedem quaisquer limites e controles, extravasando sua natureza animal. A diferença é que, ao contrário de uma imposição externa, de uma “autoridade”, como no seriado, a escolha pelo transbordamento no carnaval parte dos próprios indivíduos envolvidos no evento.

Não precisa, contudo, ser assim. Muita gente curte seu carnaval com alegria e despreocupação, porém de forma saudável. Permite-se um contentamento descompromissado, sem, no entanto, perder o controle e ultrapassar limites do razoável. Nesses casos, apreciamos uma diversão leve, feliz, inocente, autêntica, liberta das tensões, mas consciente de que a vida não se limita a esses poucos dias, nem há uma cisão radical entre alegria e pesares. Que o carnaval seja até uma válvula de escape do estresse cotidiano, mas também e principalmente, manifestação da cultura popular, criativa, democrática, inclusiva, colorida e simplesmente alegre.

Compartilhe!

Deixe uma resposta