E a boiada? … Passa?

Por: Cristina Vergnano

Estes tempos pandêmicos têm sido marcados por várias situações que eu classificaria como surreais (e não num sentido elogioso). Talvez se possa atribuir o fato ao stress traumático de mais de um ano de mortes, carências diversas e isolamento. É admissível. Mas eu diria que tais ocorrências servem, em alguns casos, como combustível para enfermidades bem antigas e nossas velhas conhecidas.

Estamos acompanhando, como se fosse uma versão institucional de BBB21 (spin-off), a novela da CPI instalada pelo Senado no final de abril de 2021 (vergonha alheia, mas necessária). Nesse “show” (quase com ares ficcionais tragicômicos), a cada dia nos aparecem novas pérolas requintadas de mau gosto, como o pênis na Fiocruz, e peças de enrolação da mais descarada. Embora pareça óbvio que tem havido descaso criminoso (ou, ao menos, incompetência) na gestão da epidemia em nosso país, as posições continuam divididas e atritos se instauram no próprio âmbito da casa legislativa.

Enquanto isso, zapiando outros canais desta vida, somos “entretidos” pelas redes sociais compartilhando abaixo-assinados por impeachment do presidente, agressões e ofensas entre partidários desta ou daquela facção, fake news, notícias de motociatas desmascaradas e insurreição de grupos festivos com distanciamento de “romeu e julieta” (o doce, bem grudadinho, não os personagens shakespearianos). Entre tantas novidades que fariam corar qualquer habitante de Macondo, houve, em 19 ou 20 de maio, “na calada da noite” (palavras não minhas, mas emprestadas de uma postagem que recebi), o atentado às faixas da manifestação do Dia Nacional de Paralisação em Defesa da Educação, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O perpetrador do ato contra o direito constitucional à liberdade de expressão, atacante das pobres faixas indefesas, tranquilas e pudicamente descansando na fachada principal da instituição, (pasmem!) foi um deputado do estado do Rio de Janeiro, indivíduo eleito para elaborar, discutir e aprovar (ou não) leis.

Pois bem: não satisfeito, ato seguido, o cavalheiro apresentou na última terça-feira, 25 de maio do corrente, um projeto de lei (PL), na Assembleia Legislativa, propondo a extinção da referida universidade. (Ênfase em “extinção”, definitiva e absoluta, como a dos dinossauros.) As justificativas? Trata-se de uma instituição muito cara para os cofres públicos, implica um gasto altíssimo por aluno/ano e, ainda por cima, é um antro de pensamento da esquerda. Ok! O excelentíssimo parlamentar é de um partido de extrema direita (se ainda nos cabe usar esses rótulos na atualidade) e apoiador da presidência da república. Isso explicaria sua aversão natural, quase atávica, ao que chamou de “nítido aparelhamento ideológico de viés socialista na universidade” (fragmento de fala disponível em notícia do jornal carioca O Dia, a respeito do projeto). O encaminhamento da proposta, a qual prevê o remanejamento dos bens móveis e imóveis da instituição a universidades particulares, suscita, contudo, outras reflexões. Sim, a bem da verdade, preciso esclarecer que a referida ação se define como uma “cessão onerosa especial”, cuja renda seria utilizada para custear bolsas para alunos carentes. No entanto, persistem dúvidas sobre os critérios para regular dita cessão e a presença da preocupante adjetivação: “especial”, dando margem a um leque amplo de possibilidades (Haja imaginação! E há!).

O incômodo que a UERJ parece despertar em certos indivíduos ligados à administração estadual (ou, neste caso, à instância legislativa) não é novidade. De vez em quando surge algo nesse sentido: uma suspeita de desmonte, uma sugestão de privatização, um patente sucateamento e um desinvestimento sistemático. Neste maio de 2021, o que sempre foi suposição ou temor aparece explicitamente redigido e encaminhado. Detalhes ainda esclarecem que os bens não absorvidos pelas tais universidades particulares poderiam passar para as outras instituições de ensino superior estaduais: UEZO e UENF. Fico pensando, por que estas outras universidades não seriam igualmente um alvo? Serão mais baratas para a máquina pública? Não valerão à pena para os “herdeiros” da falecida UERJ, tanto quanto a vítima do PL parece valer? Ou será que suas ideologias não soam tão daninhas? Os alunos também são colocados como recursos trasladáveis, pois seriam, igualmente, remanejados para as empresas privadas beneficiadas nos acordos. Diga-se de passagem, esses estudantes iriam com bolsas custeadas, como apontei acima, por recursos obtidos na cessão onerosa especial (ou seja, o dinheiro sairia das mãos dos vencedores dos leilões e acabaria voltando à sua origem: ônus final para o estado). Quanto aos funcionários, estes seriam transferidos, caso não quisessem aderir a um programa de demissão voluntária (arrisco dizer que este seria o desejo íntimo e oculto desse senhor).

Não cabem dúvidas quanto ao espírito de antagonismo contra aquela que é uma das 10 melhores universidades do país, reconhecida nacional e internacionalmente. Não posso, porém, furtar-me a questionar se existe ou não algo mais, um quezinho subterrâneo e oculto motivando tal iniciativa, justo agora, em plena crise sanitária. Afinal, ninguém poderia supor que o projeto ficaria sem resposta nem oposição… É, também, uma proposta tão direta, nada política, que chega a ser ingênua e grosseira na sua concepção. Tentar tirar do circuito uma universidade com representativa atividade científica e de formação, pioneira em ações de inclusão social, com certeza incomodaria (e incomoda). Nesse momento, portanto, volta à minha mente a figura (de linguagem?) verde e amarela (mais amarelo ouro do que verde floresta) de nosso ministro do meio-ambiente, pilhada numa reunião de cúpula do governo federal faz um tempo. Para ele, afinal, a pandemia não soa de todo ruim, mas como oportunidade de passar (impunemente) a boiada. Será que temos aqui nova cortina de fumaça (não das queimadas, bem entendido)? O que estaria sendo encoberto desta vez? Porque, se era desejado buchicho em torno do fato, este já está ocorrendo (até aqui no ToV decidi trazê-lo à baila) e se alastrando qual incêndio em mato seco (perdoem-me o clichê, mas é uma imagem compatível com o ministro citado).

Vocês dirão que se trata de fantasia minha, teoria da conspiração. Pode ser… Onde, porém, governa-se desde as redes sociais e constrói-se a verdade com base em narrativas, no universo da palavra, toda ficção é possível e cabe ser considerada. O caso UERJ será, então, diversionismo? (Diga-se de passagem, oportunista, pois, em se tornando realidade, matar-se-iam dois pobres coelhos com uma única canetada.) Até o presidente da Alerj e o presidente da comissão de educação da assembleia já se pronunciaram, apontando a inconstitucionalidade do PL. E a boiada (seja ela qual for) … passa?

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