Direitos de sucessão Publicado em 09/07/202107/07/2021 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Tudo o que restou de suas vidas de trabalho e dedicação foram a velha casa, um pequeno galpão alugado e dois inventários em sequência que, no total, se arrastavam há mais de quarenta anos. Tinham deixado, também, uma ampla descendência, lá pela quarta ou quinta geração, agora espalhada pelo país. Vários membros dessa prole sofriam de uma tara familiar atávica. Resultado: um antagonismo irracional e a consequente sede voraz por aqueles bens materiais tão ínfimos e por um status de poder duvidoso. Se estivessem vivos, adivinho, os dois velhinhos se sentiriam amargurados. A ganância e mesquinhez, porém, não eram completas, unânimes nem contínuas. Falhavam em alguns indivíduos. Estes, enojados, mantinham distância, não vendo motivos para tanta altercação. Dos muitos filhos do casal, apenas uma ainda vivia, embora quase de partida. O fato parecia acirrar os ânimos e fazer surgir interesses questionáveis de onde antes nem vozes se ouviam. A pobre estava já fora de sintonia com este mundo, inconsciente do triste espetáculo encenado quase diariamente, ao vivo, por telefone ou pelas redes sociais, entre seus parentes. No furor, alianças se formavam; advogados eram acionados; amigos do passado se afastavam, fosse para não presenciar tal degradação, fosse para elaborar planos de ataque. A guerra decisiva, por fim, teve início, palco e plateia. Armas variadas foram escolhidas: apropriação indevida de propriedade, desaparição de papelada, ofensas e agressões físicas, queixas policiais e intimações judiciais. Enquanto isso, vários se enfermavam seriamente ou morriam (por doença, acidentes, drogas, ou apenas porque havia chegado sua hora). Aqueles que se entregaram à loucura ancestral sucumbiram, uns após outros. Depois de anos, restaram poucos e os bens, tão cobiçados e parcos, deterioraram-se no tempo e por maus tratos. Os que se mantiveram à margem abandonaram o espólio ainda aproveitável para um infeliz sobrevivente da contenda. Seguiram com suas vidas e, somente para eles, boas recordações persistiram como a verdadeira herança. Visualizações: 506 Compartilhe! Narrativas breves disputaherançasucessão
Gravura em dia de chuva Publicado em 31/03/202231/03/2022 Por: Cristina Vergnano A tarde está cinzenta e encharcada. Ainda não é hora do rush, mas, numa avenida central da cidade, faróis, lanternas e buzinas já se fundem, clamando por espaço. Nas calçadas, um mar de ternos e pastas se agita em ondas entrechocadas de guarda-chuvas abertos. Num primeiro plano,… Compartilhe! Leia mais
Homicídio culposo Publicado em 30/04/202130/04/2021 Por: Cristina Vergnano Os gêmeos distavam tanto em crenças, quanto se igualavam em aspecto. Um se permitia excessos. O outro gabava-se de sua comida saudável. Um dia, aquele teve um sobressalto. O irmão havia sido encontrado morto em casa! Abatido, quis detalhes. Causa mortis: falência cardíaca; envenenado por glifosato. Visualizações:… Compartilhe! Leia mais
Perspectivas Publicado em 08/10/202108/10/2021 Por: Cristina Vergnano Karine tinha passado a manhã ansiosa para mostrar à sua melhor amiga algo no celular. No pátio do recreio, puxou-a e disse: – Ouve que legal o meu irmão gravou de madrugada. – O quê? Barraco? Gemidos apaixonados? – Não, Lara. Que mania de fofoca! Escuta. –… Compartilhe! Leia mais