Despojos Publicado em 28/08/202128/08/2021 Por Cristina Vergnano Por: Cristina Vergnano Muitos de nós já ouvimos falar na guerra de Troia, ou, ao menos, nas expressões: “cavalo de Troia” e “presente de grego”. Trata-se de um evento que hoje se sabe real, mas está muito mesclado com a mitologia. Para desenrolar o fio dos acontecimentos, segundo a literatura e os mitos gregos, precisamos começar pelo sequestro de Helena pelo príncipe troiano Páris, por ela apaixonado. Tendo sido levada para Troia, despertou o desejo de vingança de seu marido, Menelau, rei de Esparta, fato que desencadeou a guerra entre os dois povos e cuja duração foi de 10 anos. Nenhuma guerra é romântica, por mais que se lhe atribuam razões nobres ou personagens épicos. Há destruição e perdas de vida. Em geral, sofrem mais os vulneráveis e as tragédias anônimas se perdem no emaranhado dos jogos de poder. Eurípedes, dramaturgo grego, escreveu uma tragédia, As Torianas, na qual retrata retalhos dessas perdas. Destaco, em especial, um episódio: o momento em que Andrômaca, viúva de Heitor, herói troiano, recebe a notícia de que seu pequeno filho será executado, justamente por ser herdeiro do trono da cidade caída. O que lhes proponho a seguir é uma releitura da cena. Cada qual pode imaginá-la, visualizá-la e senti-la com a percepção que lhe pareça mais apropriada. *** Sob as ruínas das muralhas de Troia, desenvolve-se o drama de quem nada mais tem a perder, pois pouco lhes importa. Mulheres troianas, antes nobres, agora escravas, testemunham o destino imposto pelas jogadas dos deuses no tabuleiro da vida. Taltibius chega para levar à viúva de Heitor a decisão dos chefes gregos. Mas o mensageiro vacila… Entre conquistador e cativa, adivinha-se o desfecho trágico. Por fim, ele brada que Astianax não será escravo: morrerá, pois o herdeiro de um herói está destinado a grandes feitos e vinganças. Nem nos mais sombrios presságios, Andrômaca teria imaginado a dor que agora lhe estraçalha a alma. Ela nada pode: os deuses lançaram as peças e avançaram as casas; não há como recuar. O soldado o sabe e adverte a princesa troiana. “Ah, o escárnio de uma raça de violentos, que não respeita sequer a inocência, nem vê nela algo além de despojos de guerra!” A mãe abraça o filho, como se pudesse gravar na pele a memória do amor roubado. Despojada da realeza, rebaixada a coisa cujo corpo será possuído contra sua vontade, encontra-se ferida de morte, porque o pior dos tormentos, o vive ali, com um clamor que chega ao Olimpo. Seu pequeno menino lhe é tirado para sempre, vítima de sua origem. Terá uma morte atroz e seu espírito vagará solitário pelo Hades. Nada, nem ninguém, virá em seu socorro, sequer seu glorioso pai. Morre o garoto. Morre, também, a mãe, pois é ânfora vazia que errará sem sentimentos pela terra, ansiando o esquecimento do submundo. Então, no carro dos espólios, se esvai desta realidade, mescla de sombra da altivez de outrora e incompletude. Visualizações: 418 Compartilhe! Narrativas breves AndrômacaEurípedesguerra de Troiatroianas
A Odisseia, Parte III: “A vingança de Odisseu” Publicado em 12/11/202112/11/2021 Canto XXIII e ½, apócrifo: Sentença de Penélope Por: Cristina Vergnano A partir de A Odisseia, de Homero Ao receber a notícia do regresso do senhor de Ítaca, Penélope não pôde crê-lo, tantos foram os anos passados, tais o sofrimento e a desventura. Decerto, pensaria, algum deus a haveria livrado… Compartilhe! Leia mais
Atualidade envolta em brumas Publicado em 18/06/202118/06/2021 Por: Cristina Vergnano Desligou a tevê com um suspiro. Jogou para o lado, na cama onde estava prostrado, o celular, aberto ainda na página da última rede social consultada. Perdeu seu olhar no teto branco acinzentado, impreciso como ele. Depois de mais de um ano isolado por decisão própria em… Compartilhe! Leia mais
Agouro Publicado em 13/08/202113/08/2021 Por: Cristina Vergnano Todos diziam que superstição era coisa de gente antiga ou com pouco estudo. Ele, contudo, não gostava de dar mole para o azar e, naquele dia, estava incomodado. Tinha pegado a escala noturna, saindo já passada a meia-noite. “Justo numa sexta-feira treze, em agosto!” De repente, todas… Compartilhe! Leia mais