Crônica de natureza enamorada

Por: Cristina Vergnano

Terra acordou, certo dia, invadida de primavera, vestida de verde intenso e flores, com suas curvas douradas de luz. O calor a deixava assim: plena de vigor e alegria. Mostrava-se como quem deseja cativar, não levando, contudo, nada muito a sério.

Mar e Vento, que roçavam sua pele sem obter grande reação, a vendo sorridente para o Sol, se encheram de ciúmes. Despeitados, se uniram e convocaram o Ciclone para cobri-la com um manto cinza e denso, ocultando-lhe a face. Depois, choraram sua frustração sobre ela.

Sol, porém, era cheio de malandragem. Encontrou um pequeno orifício no manto e, lá de cima, lançou uma mirada sobre a musa oculta e sorriu.

Percebendo o observador, Terra suplicou à amiga Brisa que encobrisse seu embaraço, num falso pudor. A cúmplice satisfez o pedido, mas deixou esgarçado o tecido, de modo a permitir ao enamorado um vislumbre da amada sob um fino véu.

Ciclone se deslocou rumo ao norte, pois tem natureza inconstante e não sossega num só lugar. Mar e Vento perceberam, então, que, em breve, veriam novamente a Terra em seu esplendor desnudo. Teriam de se deliciar com aquela miragem inacessível e se conformar com o fato de ela pertencer só a si, enquanto se mostrava a todos, em seu jogo eterno.

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