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Ao gosto de Baco

Publicado em 05/10/202304/10/2023 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

Ruas de Anadia, a 30 km de Coimbra, foram ocupadas por um rio de vinho, após acidente no depósito de uma destilaria, no domingo, 10 de setembro de 2023. As causas do acidente estão sendo apuradas.

“Ai, minha Virgem de Fátima, que estou perdido!” Pois, senhor inspetor, foi isso mesmo que eu gritei, quando vi a cachoeira vermelho-arroxeada a formar-se na lateral do depósito. Eu teria feito soar o alarma, se tivéssemos um. Contudo, o senhor sabe: somos uma fábrica de bebida, não uma plataforma de petróleo, uma siderúrgica, ou uma penitenciária. Nada de sirenes! Sim, eu estava de plantão na segurança. Mas o que poderia fazer um pobre velho sozinho contra aquela enxurrada? Só consegui telefonar aos patrões, depois de acalmar-me. Ademais, garanto-lhe, foi sabotagem. Nem eu, nem os proprietários da empresa temos a menor culpa. Eles são gente muito séria, digo-lhe do fundo d’alma. Quanto a mim, sou funcionário modelo há tantos anos, que já perdi a conta. E como sei do crime? Ora, pois, vi com estes meus olhos, os quais a terra um dia há de comer, uma sombra suspeita esquivando-se pelos fundos do depósito, trás o dano feito. Só podia ser o culpado. Imagino que não haverá outra prova além da minha palavra, porque o rio de vinho levou tudo consigo, mas o inspetor pode confiar. Juro-lhe pelo mais sagrado que esse alguém cá entrou, estourou a parede e saiu de fininho, deixando a responsabilidade comigo. Quem ganharia com esse desastre? Sinceramente, não saberia dizê-lo, porque somos todos muito queridos por estas bandas. Mas afirmo que devem ser uns ateus, pois o evento foi digno de um bacanal.


Nota da autora:

Originalmente, as crônicas relatavam fatos e serviam aos interesses daqueles que as encarregavam aos cronistas. Com o tempo, em especial aqui no Brasil, os autores ampliaram seu foco, acrescentando, inclusive, personagens. E, apesar de se inspirar na realidade, chegam a ultrapassar as fronteiras do real. Um grande nome de nossas letras, responsável por escritos inovadores no gênero, foi Machado de Assis.

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