Um pouco de luz em você

Por: Cristina Vergnano

Hoje, acordei com alguns planos. Quer dizer, pra ser sincera, despertei de forma meio brusca, após um sono cheio de sonhos estranhos, envolvendo máscaras, álcool, viagem ao exterior, parentes, personagens de séries de televisão, enfim, uma grande salada. O despertar foi, assim, trôpego e confuso. Mas os projetos para o novo dia tinham sido definidos na noite anterior e era só questão de os recuperar.

Acontece que, na vida, as coisas, com grande frequência, insistem em tomar rumo próprio, como se tivessem autonomia para tal. Tendo realizado as atividades rotineiras pós-despertar, abri o aplicativo de mensagens e deparei-me com muitas delas. Chamaram-me a atenção algumas cujo tom, não sem motivo (fique bem entendido!), era sofrido, amargo, desesperançado até, eu diria. Isso me levou a parar e escrever, alterando a tal agenda prévia.

Vivemos há mais de um ano num estado de constante tensão: pandemia, confinamento, mortes e mais mortes – pelo vírus, pela fome, pela violência. Ironicamente, também, parece que estamos mergulhados num universo paralelo, do tipo Além da Imaginação, no qual negacionismo, falta de bom senso, ausência de sensibilidade e desrespeito pela vida imperam de forma desavergonhada. Todo o estresse e comoção que essa realidade, tão dura, nos impõe é constantemente alimentado por infindáveis notícias soturnas.

Concordo que precisamos estar informados. Sei, também, que, se nos deixarmos cegar, ficará cada vez mais fácil ver tornar-se real e soberano inconteste esse outro universo. No entanto, começo a refletir igualmente sobre os efeitos de tanta “realidade”. Explico-me.

No início da semana, fiz uma vídeo-chamada para minha tia, a irmã mais nova de minha mãe (esta, falecida há um ano de covid). Nunca é um bate papo muito fácil, pois ela, aos seus 86 anos, reitera que não consegue lidar bem com essa modernidade digital. Ainda assim, conversamos e, naquela ocasião, ouvi-a dizer que as notícias eram sempre muito ruins e o clima cada vez mais pesado, difícil de levar. Compartilhei, então, com ela uma experiência que me chegou por uma mídia social e foi publicada pela BBC news Brasil, em 3 de maio deste ano. Um projeto levado a cabo na comunidade da Maré, no Rio de Janeiro, pela Fiocruz e várias ONGs, estava conseguindo reduzir em 90% as mortes e o índice de contaminação por lá. O segredo? Investimento em testagem, planejamento de alocação dos doentes em um sistema de quarentena, suporte médico, psicológico e, principalmente, de alimentação para aqueles que teriam que ficar isolados, sem poder trabalhar e buscar seu sustento. Solidariedade, organização, ciência e ação são, para mim, as palavras de ordem em tal empreendimento. Um dos muitos exemplos de resistência e luta contra a adversidade. A resposta da minha tia? “Pois é… mas isso eles não mostram!”

Dou-me conta, portanto, de que, sendo as tragédias humanas enormes e dolorosas, por isso mesmo faz falta um pouco mais de luz em todos nós, parafraseando o Roupa Nova em sua canção Clarear. Iniciativas como essa na Maré não são isoladas, sequer raras, ouso arriscar. Apenas, talvez, emudecidas, “invisibilizadas”.

Outro detalhe vindo à minha mente é que, para além de uma fé cega e “de gado”, devo admitir que as pessoas com (ao menos alguma) espiritualidade tendem a lançar olhares novos sobre esse quadro sinistro. Não são acomodadas, embora reconfortadas. Ao contrário, vão a campo, arregaçam as mangas e procuram tirar aprendizado e força das circunstâncias adversas, sem perder a perspectiva daqueles que necessitam de maior amparo. Não me considero uma delas, lamentavelmente: acho minha fé débil. No entanto, quando consigo sentir alguma beleza e saída entre tanta dor, sacudo-me, fico enternecida e me inclino a crer que, de fato, somos destinados à luz (apesar de as sombras insistirem em tapar-nos o sol).

E, já que hoje estou em clima de música, encerro com outro refrão, desta vez do musical americano Hair: Let the sunshine in. Deixemos o sol entrar em cada um de nós para sermos chama e farol, alimentando-nos de energia e explodindo-a à nossa volta. Nunca é adequado ignorar a realidade, mas é viável alterá-la. Será, então, o grande grito de “apesar de você, amanhã a de ser outro dia”, com a licença de Chico Buarque.

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