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Há violências e VIOLÊNCIAS

Publicado em 04/02/202204/02/2022 Por Cristina Vergnano

Por: Cristina Vergnano

No segundo dia de fevereiro de 2022, recebi por Twitter o link para uma reportagem antiga da BBC News Brasil, datada de 07 de fevereiro de 2017, sobre “Jardins do diabo”. Apesar do nome, o objeto da matéria não tem nada de satânico. Trata-se, ao contrário, apenas de uma árvore da Amazônia, presente no Peru e aqui em nosso país, na qual habitam, em uma relação de mutualismo, formigas-limão.

Mas, de onde vem, então, seu apelido tão instigador de sentidos? Ocorre que, no local onde nasce e cresce essa planta, não há a típica diversidade vegetal amazônica. Quase só ela se desenvolve nessas clareiras. Segundo lendas indígenas, isso ocorreria porque espíritos malignos vivem nela. Daí, a população autóctone evitar à noite esses pontos da floresta.

A explicação científica, contudo, é bem menos cheia de mistério. As tais formigas, conseguem fazer seu formigueiro nos ocos da árvore. Em troca do abrigo e, claro, para conservá-lo, atacam em grupo animais predadores da Duroia hirsuta (este é o seu nome científico), mesmo maiores do que elas. Também injetam ácido fórmico em outras espécies vegetais que se aventurem a nascer no seu território. O ácido atua como um veneno que seca e faz murchar a invasora até sua total eliminação. Desta forma, as formigas não perdem o habitat e a planta garante seu desenvolvimento sem competição ou ataques.

Ora, pessoas menos versadas em questões ecológicas provavelmente verão uma certa selvageria em tal comportamento. As formigas-limão são pequenas, no entanto, vão em grupo sobre suas presas, animais ou vegetais, a fim de garantir a própria sobrevivência. Sem dó nem piedade! E, talvez, essa gente diria também que a planta é “egoísta” e oportunista, pois pretende o espaço só para si e aproveita a presença das formigas aliadas para se manter ilesa e dominante. Tudo conclusões e julgamentos equivocados, com base em padrões de raciocínio humano.

Não há maldade ou premeditação nesses comportamentos, fazendo parte do instinto, por chamá-lo de alguma forma, animal e vegetal. A natureza busca equilíbrio. Sem uma ação que provoque a ruptura dessa harmonia, sempre haverá inimigos dos insetos, limitando seu crescimento e expansão para além do adequado. O mesmo valerá para a planta. É uma cadeia que se conecta e complementa, compartilhando o que cada espécie tem de melhor a oferecer. Embora consideremos até cruel, posto que envolve morte, destruição e apropriação do espaço pela força, não é uma conduta realmente agressiva (no nosso sentido da palavra) ou intencional.

Nós pessoas, ao contrário, seres inteligentes e sociais, gabamo-nos de nossa superioridade e cometemos atos muito mais violentos, sem quaisquer justificativas ecológicas ou de outra ordem razoável. No final do mês passado, por exemplo, muitas e muitos ficamos indignados com o assassinato do jovem congolês, Moïse Mugenyi, no quiosque em que trabalhava na praia da Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, em 24 de janeiro de 2022. O rapaz tinha 24 anos e sua família veio para o Brasil fugindo justamente de uma guerra no Congo, refugiados em busca de uma vida mais segura e tranquila. Naquele dia, três homens espancaram Moïse com pauladas até a morte, sem lhe dar condições de defesa. O vídeo da câmera de segurança do quiosque, além da agressão, mostrou algumas tentativas de ressuscitação do agredido. Ele, porém, faleceu e foi largado amarrado numa escada.

Segundo afirmações do dono do estabelecimento, os agressores não trabalhavam no local, nem eram seus conhecidos. A família, por sua vez, informou que o jovem tinha ido cobrar diárias atrasadas, detalhe negado pelo patrão, e teria sido, então, atacado. Seja como for, nada justifica a barbárie e, do modo como se configura o acontecimento, o cenário aponta para mais um lamentável episódio de ódio racial.

O que acontece com os seres humanos? Seremos como os animais selvagens, atacando para defender território, alimento, parceiros para procriação, posição de alfa “no rebanho”, ou recursos diversos? Mas, se nos orgulhamos de nosso intelecto, racionalidade, feitos, descobrimentos e invenções, como sustentar tal argumento? Há quem, tentando defender essas posturas violentas, as justifique com alegações questionáveis. Algumas são: “imigrantes e refugiados roubam os postos de trabalho das pessoas nascidas no país que os recebe”; “há tendências agressivas, criminosas ou indolentes desses estrangeiros e de determinados grupos étnicos ou estratos socioeconômicos”; ou, ainda, “os vitimados seriam os próprios culpados das lesões sofridas” e por aí vai. Essas afirmativas, no entanto, não se sustentam para além daqueles que comungam de tais posicionamentos preconceituosos.

No final, conseguindo ou não obter justiça e impedir indivíduos de continuarem humilhando, segregando, agredindo e matando, a parcialidade e a atitude violenta dos perpetradores desses atos ficam patentes. Nossa conclusão? Há violências e violências. Algumas entendidas assim são apenas parte da cadeia da vida natural e estão despidas de maldade ou premeditação, como no caso das formigas e da duroia. Outras, como a do assassinato de Moïse, desmascaram o pior de nossas sociedades, uma conduta corrosiva e injustificável. Esta, sim, é verdadeira violência.

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Comentários (2)

  1. JakM disse:
    13/03/2022 às 23:18

    Que texto incrível! Amei os links! Parabéns!

    Acesse para responder
    1. Cristina Vergnano disse:
      14/03/2022 às 11:30

      Oi, Jake! Há quanto tempo!!!! Já sentia falta dos seus comentários. Interação é algo muito bom nesses espaços de blog. Além de nos colocar próximos – escritora, leitoras e leitores -, serve como um termômetro da própria escrita. Obrigada por você participar!
      Sobre o texto, gosto desse jogo entre coisas improváveis: plantas, formigas e a violência étnica não são temas aparentemente conciliáveis. Ainda assim, creio que deu certo. Que bom você ter gostado.
      Bjs, Cristina.

      Acesse para responder

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