Novidade que veio com a tempestade

Por: Cristina Vergnano

Saí de uma consulta no meio da tarde. Fui em direção aos elevadores, mas nenhum estava no andar. Apertei o botão e esperei, saltitando de um pé para o outro. Quando a porta se abriu, parei indecisa diante das três pessoas que estavam ali. “Entro ou não entro? A porta não vai ficar aberta pra sempre e eu quero mesmo voltar logo pra casa.” Pensei nos prós e contras, engoli mentalmente em seco e entrei.

Cumprimentei as pessoas com voz sumida, cabeça abaixada, e me coloquei num canto. A descida foi breve. Logo me vi no saguão, pronta para tomar o caminho da minha rua. Antes, porém, talvez passasse na “Panificação Dona Cássia”, pois me bateu uma vontade de biscoito casadinho recheado com doce de leite. Não qualquer um, mas daqueles feitos na própria padaria, com gosto de caseiros. Delícia!

Quando passei da porta de entrada do prédio e saí para a calçada, percebi que meus planos precisariam sofrer rápida alteração. Na verdade, eu teria sorte se chegasse ao meu destino sem maiores incidentes. Já deveria esperar por isso. Todos os jornais vinham anunciando a mudança de tempo há uns dois dias. Não à toa, eu estava com guarda-chuva na mão. Fui, contudo, pouco esperta, escolhendo o pequeno, de bolsa. O tempo que se armava, com um céu cinza chumbo carregado, jamais seria enfrentado com sucesso por tão mínimo adereço.

Apertei o passo. De repente, um trovão. Não cheguei a ver o raio, no entanto, tinha sido próximo. Tremi, só um leve sobressalto. Nem sei por que, pois não me apavoro facilmente com temporais. Seja como for, o bom senso tinha de vencer: “Biscoitos qual nada!” Além do mais, só engordam mesmo e eu já devia ter percebido que minha relação com a balança andava tensa e não cabia piorá-la.

Desci a avenida movimentada. As pessoas não pareciam tão apreensivas. Sei lá, poderia ser apenas impressão minha. Eu sempre lembrava, nessas ocasiões, de uma música do Ivan Lins, Gilson Peranzzetta e Victor Martins (a gravação tem muitos anos, mas o pessoal lá de casa ouve de vez em quando o bolachão) e, de fato, vinha aí um temporal! Para mim, o povo da cidade tinha perdido parte de seus instintos, aqueles que nos alertam para os perigos naturais. Ainda assim, em geral, quase dava para pressentir certa inquietação em situações parecidas à que eu estava vivendo: andar acelerado, caras tensas, esbarrões, buzinas nervosas. Naquele momento, porém, não senti nada. Estaria eu mais agoniada do que o normal e, por isso, tinha perdido a sensibilidade para captar as reações dos demais?

Ia pensando e andando, o passo cada vez com maior aceleração. Estava quase chegando à esquina. “Viro à direita, ou vou em frente, atravessando pra outra calçada? Vamos na sorte. Se o sinal estiver aberto pra mim quando eu chegar no cruzamento, sigo.” Não deu outra. Ainda consegui pegar o sinal de pedestres verde. Atravessei rápido a faixa e dobrei à direita do outro lado. A vantagem desse caminho era ter outro semáforo adiante, o que deixava o trajeto mais seguro, tendo em vista a avenida de trânsito intenso que eu deveria cruzar. Com o nervosismo que costumava tomar conta de todos nessas ocasiões, todo o cuidado era pouco.

Novos trovões. Desta vez, bem perto, altos e seguidos. Cheguei a pensar que algum teria caído num para-raios.  O céu estava muito escuro. Se a chuva prometida viesse, eu ia acabar ilhada. Acontecia sempre assim por aquelas bandas, alagava tudo. Podendo evitar, o melhor era não sair do nosso cantinho protegido em dias de tormenta.

Comecei a sentir as primeiras gotas, grandes e esparsas. “Não vai dar pra chegar em casa. Vai encher tudo logo, logo. Este meu projeto de guarda-chuva não vai dar nem pra saída.” Ia imaginando o banho não planejado, os riscos da enxurrada, o engarrafamento e o perigo de assaltos oportunistas, quando olhei para a igreja na esquina seguinte. Seguro; este é um local tranquilo para esperar o pé d’água passar.

Foi cruzar a enorme porta central de madeira, suas duas bandas abertas, e colocar os pés no templo silencioso e escuro, que o céu desabou. Primeiro foi a chuvarada, intensa, volumosa. Depois o vento, parecendo querer arrancar as palmeiras da alameda de entrada no pátio da igreja. A grande folha seca de uma delas pairou no céu, desenhou arabescos acima dos carros parados no estacionamento e foi acabar quase no portão de ferro do muro da propriedade. Tudo estava encoberto por uma cortina esbranquiçada e líquida, sacudida pela ventania.

Protegida, eu olhava fascinada o espetáculo de fúria e soberania da natureza. Sim, porque, àquela altura, quem estivesse do lado de fora se via submetido aos riscos inerentes às tempestades. As lufadas de ar sacudiam árvores, arrancavam galhos, chicoteavam e espalhavam a água, fazendo-a cair mais impetuosa. Guarda-chuvas viravam ao contrário, piscinas se formavam nas esquinas e próximo às calçadas, numa clara denúncia da falta de capacidade de escoamento pluvial, bueiros borbulhavam, buzinas uivavam, o trânsito começava a se tornar caótico, conforme o costume em meio a esses eventos. E eu, apreciando fixamente.

Nesse instante, quando parecia que nenhuma novidade viria, comecei a perceber algo diferente, uma coisa que eu não via há alguns anos. Bolinhas de gelo pipocavam no calçamento de pedra do pátio. “Granizo!”

Não resisti. Saí da igreja e me arrisquei sob o aguaceiro gelado. Pequenas pepitas transparentes desciam sobre mim, sobre os carros estacionados, golpeando o chão. Peguei rápido algumas nas palmas das mãos em concha. Eram tão lindas, perfeitas, redondas, lisas. Gotas de chuva solidificadas. Num conto de fadas, poderiam ser contas de colares para princesas mágicas.

Eu estava ali, encantada e feliz, sem nem atinar no ensopada que minha roupa começava a ficar, quando meu pai chegou com o carro para o resgate. Poucos minutos antes, ele tinha ligado preocupado para o meu celular. Queria saber de mim. Insistiu que eu ficasse exatamente onde estava, segura, pois iria me buscar.

Corri até o veículo. Meu pai se espichou, abriu a porta do carona e me encarou entre surpreso e reprovador. Na certa, pensaria na maluquice que é meter-se debaixo da chuva intensa, com risco de levar na cabeça com um galho trazido pelo vento. Entrei, carregando junto algumas pelotas brilhantes, outras pipocavam sobre o veículo. Ambos concordamos que havia tempo não víamos acontecer o fenômeno. Ele comentou que, embora tivesse lá sua graça, isso deixaria umas mossas bem desagradáveis na carroceria.

Fiquei olhando as pedrinhas se derreterem na palma da mão sem saber ao certo o que fazer com elas. Era como segurar a transitoriedade: o sólido ia virando logo líquido, que não podia ser retido e só serviria para molhar o interior do veículo e contribuir para lhe dar, eventualmente, cheiro de mofo. Mas, fazer o quê? Abrir a janela para atirar fora o granizo que insistia em se liquefazer seria apenas uma tentativa sem sentido, afinal, o volume de água exterior que entraria pelo vidro abaixado acabaria sendo bem maior do que o vindo daquelas pobres contas de H2O. Além do mais, parecia ridículo me preocupar com isso, dado o fato de minha roupa, por si só, já estar fazendo um belo serviço para molhar assento e chão.

Meu sentimento de quase êxtase ante o fenômeno foi substituído pela realidade e o senso prático. Como a roupa estava mesmo molhada, por que não me livrar nela dos restos mortais do granizo? Resolveria dessa forma o problema num piscar de olhos. Pensado e feito. Não, contudo, sem uma pontinha de melancolia, como criança que perde o momento da graça, da perplexidade e do encantamento.

O carro nos levou para casa, com alguns tropeços e atrasos. No caminho, o lado poético cedeu ao triste. Vários galhos caídos nos obrigaram a manobras e rotas alternativas, transformando o perto em longe. Fios elétricos danificados, ruas alagadas, alguma lama, gente atordoada, vidro de uma janela que caiu acolá forçada pelo vento, vasos de plantas encharcados ou tombados compunham o cenário de caos. As pessoas em situação de rua, tentavam catar seus poucos pertences e buscar formas, num esforço vão, de salvaguardar alguma proteção contra o frio após o pôr do sol. Sua dor se chocava contra meu anterior prazer pela novidade. Mossas nos veículos, com certeza haveria, embora não fosse o pior efeito da tempestade nem nos tenha ocorrido verificar, pois a trégua temporária só nos impulsionava à segurança do apartamento. Estranhamente, com mais trovoadas e chuvas reiteradas, a luz não faltou (ainda bem!).

Ao longo daquela noite e madrugada, alternaram-se períodos de chuva e estiagem. Não voltou a cair granizo, nem a ventania rugiu intensa. A temperatura foi caindo e deixando um gostinho de inverno antecipado em meio ao outono. Na memória, passado tudo, teimava o misto desconcertante de beleza, impetuosidade, receio e melancolia pelo que experimentei, vi e adivinhei.

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2 thoughts on “Novidade que veio com a tempestade

  • 24/05/2022 em 20:03
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    Que história deliciosa!!! Nos transporta pra lá… dá pra sentir as pedrinhas de granizo! Parabéns!

    • 24/05/2022 em 20:52
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      Oi, Jak!
      Já faz um tempo que não a vejo por aqui. Que bom que voltou!!! 🙂
      Fico feliz que tenha apreciado o conto. Inspirei-me, em parte, numa experiência recente, no último temporal aqui no Rio, quando choveu granizo. Mas, claro, a história é mesmo ficção. 😉
      O que achou da navegação pelo hiperconto? Obrigada por seu comentário.
      Bjs, Cristina.

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